
“Hoje, tenho enfrentado a problemática de alunos se mutilando, com crises de choro e de ansiedade… Tenho conversado, aconselhado… E nessa expectativa de ajudar, tenho perdido o sono por não ver resultados. E até funcionários têm apresentado situações parecidas. Não está sendo nada fácil…
Já tive vontade de sair da gestão por não encontrar caminhos que surtam efeitos”
O relato acima vem de uma gestora escolar de Ouricuri, pequena cidade no sertão pernambucano. Ele é real, recente e mostra as angústias, a ansiedade e as dores de quem se vê diante desse desafio de lidar com problemas referentes às emoções e os sentimentos de diferentes atores da comunidade escolar. Como você acolheria essa gestora? Já ouviu relatos parecidos?
“Angústias e ansiedades são sentimentos humanos. Precisamos nos acalmar porque juntos vamos encontrar um sentido“, pontua Isabel Kann, psicóloga, professora e pesquisadora da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC/SP).
A seu ver, muito desse mal estar sobre as nossas próprias emoções e como lidar com elas vêm do fato de que vivemos em uma sociedade contemporânea que nos exige sermos eficientes, únicos e singulares a todo momento. Uma sociedade que prega que cada um vença sozinho e onde o mal estar, a insegurança e as dúvidas não tem muito espaço ou apreço.
Com isso, acabamos não pedindo ajuda, não olhando para ou escutando o outro, não permitindo a troca e a vulnerabilidade. “Estamos na contramão disso tudo, resgatando valores comunitários, solidários, valores de estarmos juntos, sem acreditar em respostas rápidas, mágicas, fáceis, míticas mesmo“, diz Isabel.
Suas falas – e o relato que abre esta reportagem – fizeram parte da 2ª edição do Intercâmbio entre Gestores Escolares, promovido pelo programa Parceria pela Valorização da Educação (PVE/2022). O tema escolhido foi Saúde Mental nas Escolas.
O gestor não vai resolver tudo sozinho, mas vai prestar atenção ao que o merendeiro, a família, os professores trazem. Vai dar valor aquele grito das crianças e reconhecer o que elas precisam. A escola deve ser esse lugar de esperança, que vai transmitir sonhos e procurar encontrar respostas. Ela precisa resgatar esse lugar, que pode não ter todas as respostas, mas que em conjunto pode produzir conhecimento e permitir encontros, abraços e entendimento sobre o tempo de cada um. Eu diria que saúde mental é poder sonhar“, diz.
